Não se pode dizer valor o matar os seus concidadãos, atraiçoar os amigos, não guardar a palavra dada, a piedade ou a religião; rasgos que podem fazer que se ganhe o império, mas não a glória.
(Nicolau Maquiavel, “O Príncipe”)
terça-feira, 18 de novembro de 2003
segunda-feira, 17 de novembro de 2003
Eu estive aqui
Em busca de vestígios da protoblogosfera, encontro na memória “post’s analógicos” afixados em paredes de monumentos, em bancos de autocarro, em casas de banho públicas. Tipicamente consistiam em algo não muito longe da fórmula “António esteve aqui”, seguida da data da efeméride. Não poucas vezes encontrava-se também a variação regionalista dessa mesma fórmula: “Celorico da Beira esteve aqui”. Umas e outras despareceram quase completamente da paisagem urbana, agora ocupada por grafitos indecifráveis. Estes últimos confirmam a manutenção da necessidade de utilizar esta forma de comunicação pública, ficando por conhecer as causas para a modificação do conteúdo. Quais são as hipotéticas explicações?
O “António“ viaja muito mais do que em 1985 e não tem paciência para assinalar a sua passagem por tantas terras;
O “António” tem um blogue onde vai divulgando os seus destinos;
Fruto da maior maior mobilidade dos tempos modernos, o “António” já não se deslumbra de cada vez que sai de Celorico da Beira;
O “António” já não vive em Celorico da Beira e por este motivo não faz para ele sentido escrever o nome de uma terra com a qual já não se identifica;
O “António” tornou-se “grafiteiro” e continua a deixar a sua marca pelas terras que visita, sob a forma de um “tag”;
Findo o serviço militar, o "António" não voltou a fazer a infindável viagem semanal entre Celorico e Mafra, durante a qual se entretinha a escrever os seus "post's analógicos". Onde estás, "António"?
Maquiavel escreve sobre... AS CAUSAS DA ASCENÇÃO E QUEDA GUTERRISTA
Não é (...) necessário a um príncipe possuir todas as (...) qualidades, sim que lhe é necessário parecer possuí-las. Assim, ousarei dizer isto de que, tendo-as e observando-as sempre, são danosas, e, parecendo tê-las, são úteis: como é bom parecer piedoso, fiel, humano, íntegro, religioso, e sê-lo; mas guardar tal disposição de ânimo que, necessitando não o ser, possa e saiba o príncipe desempenhar o contrário. E assim, é preciso que tenha um ânimo disposto a volver-se conforme os ventos e as variações da fortuna lhe ordenem, e que (...) não saia do bem, podendo, mas saiba entrar no mal, necessitando. Deve então (...) ter o maior cuidado de que nunca lhe saia da boca uma coisa que não esteja cheia das supraescritas cinco qualidades, e de que pareça, a quem o veja e ouça, todo piedade, todo fé, todo integridade, todo religião. E não há coisa mais necessária de parecer ter que esta última qualidade.
(Nicolau Maquiavel, “O Príncipe”)
(Nicolau Maquiavel, “O Príncipe”)
Resposta à TSF
Ainda inconformado com a morte prematura do programa “Freud e Maquiavel”, aproveito o ensejo para introduzir neste blogue uma nova rubrica. Chamar-se á “Maquiavel escreve sobre...” e consistirá na transcrição de excertos da obra maior de Nicolau Maquiavel - “O Príncipe” - seleccionados em função de temas actuais. Pretende-se demonstrar que o essencial do poder no séc. XXI está aprioristicamente enquadrado pelos escritos do filósofo político do Renascimento.
sexta-feira, 14 de novembro de 2003
Blogosfera analógica
... num clássico "post-it".
quarta-feira, 12 de novembro de 2003
Inscrição
Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar. (Sophia de Mello Breyner Andresen)
A TSF mudou
... e ouvintes assíduos como eu fazem o maior contorcionismo mental para tentar perceber o motivo. "Em equipa que ganha não se mexe", lá dizem os catedráticos do pontapé na bola e com alguma razão. E a TSF fartava-se de ganhar. De imediato, só noto três diferenças substanciais, e todas de sentido negativo. Acabou o "Freud e Maquiavel", acabou o "Flashback" e estabeleceu-se um novo critério de selecção musical (original, reconheça-se) que consiste precisamente na total ausência de critério. A TSF mudou, mas que bom seria se não tivesse mudado.
segunda-feira, 10 de novembro de 2003
Universidade de Coimbra fechada a cadeado e autocarro!
Apesar de mais uma ilegalidade, os estudantes não perderam a razão nesta luta - pelo simples motivo de que nunca a tiveram.
terça-feira, 4 de novembro de 2003
DdP
segunda-feira, 3 de novembro de 2003
Variações judiciais sobre o "Fim"
Quando eu for preso batam em latas
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu advogado vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um preso nada se recusa
E eu quero por força que ele vá de burro!
(Portuense adaptando à novela judicial o poema "Fim" de Mário de Sá-Carneiro)
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu advogado vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um preso nada se recusa
E eu quero por força que ele vá de burro!
(Portuense adaptando à novela judicial o poema "Fim" de Mário de Sá-Carneiro)
sexta-feira, 31 de outubro de 2003
Somos pequenos...
... Esta constatação estritamente geográfica não implica qualquer juízo sobre o valor do país em que escolhemos viver (mas onde não escolhemos nascer). Somos pequenos, ponto final. Nem bons nem maus, só pequenos. Mas é um aborrecimento sermos sempre pequenos e sermos pequenos em tudo. Há dois dias que se anunciam tempestades inauditas e, até ao momento, o "cortejo de horrores" resume-se a um telhado que caiu em Gondomar e a meia dúzia de árvores derrubadas aqui e ali. Os americanos (Avé César!) são, ao contrário de nós, quase sempre grandes e quase sempre grandes em tudo. Quando se fala num tufão, num incêndio ou numa explosão de gás, são varridas pelo menos cinco cidades de média dimensão, ardem áreas do tamanho de vários países pequenos e desaparecem quarteirões inteiros.
Há ofertas que valem 1000 palavras
Pediu-me desculpa pelo atraso em relação à data do meu aniversário e passou-me a garrafa para as mãos como se de um ritual religiosos se tratasse. "Reguengos 1990 - Garrafeira dos Sócios". Ofertas destas dizem muito mais sobre quem dá do que sobre quem recebe. Tentarei estar à altura desta delicadeza, apreciando o precioso néctar com os sentidos em estado de alerta máximo.
quinta-feira, 30 de outubro de 2003
Vida antes da morte
"Será que há vida antes da morte?" A ideia assaltou-me (à mão desarmada) enquanto assitia a uma peça de teatro - cómico, segundo os cartazes à entrada - cujo leitmotiv era exactamente este. Quando foi apresentada esta "dúvida existencial", logo no início da representação, a plateia riu. Mas por pouco tempo. Estou em crer que, se a peça fosse apresentada como "trágica", a plateia teria reagido às mesmas palavras com um silêncio sepulcral. Eu continuo à procura de um motivo para rir da pergunta...
Entre pedras, palavras...
Que estupidez o sangue nas calçadas!
O sangue fez-se para ter dois olhos,
um lépido pé, um braço agente,
uma industriosa mão tocante.
Que estupidez o sangue entre as palavras!
O sangue fez-se para outras flores
menos fáceis de dizer que estas
agora derramadas.
(Alexandre O'Neill, Poesias Completas)
O sangue fez-se para ter dois olhos,
um lépido pé, um braço agente,
uma industriosa mão tocante.
Que estupidez o sangue entre as palavras!
O sangue fez-se para outras flores
menos fáceis de dizer que estas
agora derramadas.
(Alexandre O'Neill, Poesias Completas)
DdP
Afinal está vivo!
Theias falou e, pasme-se, até falou bem. As áreas de reserva sob tutela do ICN só podem gravitar na esfera de competências do Ministério do Ambiente. Qualquer alternativa é inadmissível.
quarta-feira, 29 de outubro de 2003
Afinidades
Por vezes acontecem destas coisas. Enquanto passeamos distraidamente pela blogosfera, tropeçamos em algo completamente fantástico. Aqui está o que eu teria escrito, se para tanto houvesse talento, quando vivi longe do torrão natal.
Para o Ferro, com amizade
"Vem por aqui" – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!
(José Régio, "Poemas de Deus e do Diabo")
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!
(José Régio, "Poemas de Deus e do Diabo")
Bernardo Soares, o primeiro (e até hoje o melhor) blogger português!
Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espectáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.
Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio. (Bernardo Soares, "O Livro do Desassossego")
Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio. (Bernardo Soares, "O Livro do Desassossego")
terça-feira, 28 de outubro de 2003
DdP
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