terça-feira, 21 de junho de 2005

Há anos assim...

Em Salvador da Bahia para fugir à invernia e em Budapaste para fugir à canícula.

terça-feira, 14 de junho de 2005

Passeio Alegre

Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis — assim nuas.


Eugénio de Andrade, "Rente ao Dizer" (1992)

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Luto portuense

A cidade acordou sob um céu plúmbeo.
Imagino que no Passeio Alegre chovesse copiosamente e que as palmeiras estivessem curvadas pelo vento que sopra da barra.
O Eugénio morreu e este blog ficou irremediavelmente mais pobre.

Numa mão a pena e na outra a espada

Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal.
Como dizia pela manhã Eduardo Lourenço, foi o século XX que se veio despedir de nós esta noite.

terça-feira, 7 de junho de 2005

Nestes últimos tempos

Nestes últimos tempos é certo que a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
Viscoso gozo da nata da vida - que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
Nestes últimos tempos é certo que a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?


Sophia de Mello Breyner Andresen, Julho de 1976

segunda-feira, 6 de junho de 2005

Mais uma vez!

A histeria generalizada relativamente à reforma dos políticos traduz aquilo que de mais tacanho subsiste na psique lusitana. A pequena inveja.
Aposto dobrado contra singelo que a imensa maioria dos jornalistas que acusam certos políticos de falta de ética seriam os primeiros a não recusar direitos legalmente adquiridos.
Estas manifestações degradantes aconteceram no passado recente com Fernando Pinto, acontecem agora com Alberto João Jardim e acontecerão no futuro. Triste.

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Este blog mantém a sua tradição premonitória (cf. post de 22/07/2004) .

Obras Públicas

Num contexto de contenção financeira e verbal generalizada, é delicioso assistir ao discurso de Mário Lino. Percebe-se a necessidade do ministro em declarar quase diariamente à comunicação social o arranque iminente de vultuosas obras públicas como a linha do TGV e o aeroporto da OTA. Por um lado, sossega o destroçado sector da construção e por outro exorciza os seus fantasmas pessoais... É que tanto ele como os seus colegas de Executivo sabem que nenhuma das duas obras arrancará nos tempos mais próximos.

N. do A.

A ausência de posts recentes fica-se a dever a uma intensificação do contributo pessoal do autor destas linhas para o aumento da competitividade das empresas portuguesas.

terça-feira, 10 de maio de 2005

Campo Aberto

Mais um exercício de cidadania com sotaque nortenho.
A Campo Aberto inaugurou o seu blog e daqui envio os meus parabéns ao Nuno Quental pela sua invulgar capacidade de iniciativa.

terça-feira, 26 de abril de 2005

Com a devida vénia à "Natureza do Mal"

Faço questão de reproduzir aqui uma constatação que, apesar de óbvia (e talvez por isso), é desconcertante:

O problema não é a vida sem ti. Já tive uma vida assim e eram dias que faziam todo o sentido. Difícil é uma vida depois de ti. O depois não acaba nunca.

terça-feira, 29 de março de 2005

Até quando o "estado de graça"?

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Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 19 de março de 2005

Discrição/Confidencialidade/Sigilo/Prudência Socrática

Após um longo retiro (forçado pelas circunstâncias do país que nos aconteceu) apetece-me novamente escrever sobre política. Falta-me a matéria...

Regressarei

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)