sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

O meu desejo para 2005

Que este 2004 pré-socrático represente o nível zero da política portuguesa.
Que em 20 de Fevereiro de 2005 nos recordemos da eterna limpidez de Sophia e possamos dizer que entramos finalmente no ano que esperávamos, no mês inicial inteiro e limpo onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância da democracia.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

A inércia

Da recente entrevista de Eduardo Lourenço ao jornal "O Diabo" retive uma ideia-chave para a interpretação da infindável novela da adesão turca: "a construção da União Europeia está a fazer-se por inércia".
É notório que o alargamento ocorre sem qualquer sustentação numa matriz idiossincrática comum (e agradeço encarecidamente que não me venham aborrecer com a Constituição Europeia).
Alargamo-nos até onde nos permitem os mares e a Rússia. Não haja ilusões, o chamado "projecto europeu", actualmente, resume-se a isto!

terça-feira, 30 de novembro de 2004

Os Diários de Che Guevara

Este filme, apesar de assentar numa narrativa sofrível, constitui um "quase-documentário" sobre a América Latina actual. A fotografia, notável, procura retratar gentes e lugares que, nos anos 50, procuravam uma identidade perdida algures entre a tradição indígena e a cultura colonial.
Estes "diários de motocicleta" (no título original) são o relato de uma viagem interior pela coordenadas de uma utopia em gestação. Aqui se traça o retrato de um sub-continente que ainda hoje permanece unido por sonhos e por misérias comuns.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

O mundo a seus pés

O cenário do Congresso de Barcelos era assumidamente inspirado em Orson Welles. Quem não imaginava Kane ao ver Santana a discursar no palanque?
O globo envolvido pela seta laranja também "dava uns ares" do logotipo da agência espacial norte-americana, mas essa associação já não era tão imediata.
Ideias e projectos para o país é que não se vislumbraram, mas isso também ninguém esperava.

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

Congratulations Mr. Bush!


Texas rules!

A vitória de Bush é quase inexplicável aos olhos da "Velha Europa". Mas deve ser lida antes de mais como um sinal claro de alerta. Não conhecemos verdadeiramente os Estados Unidos. Esta falta de conhecimento pode explicar muitos dos equívocos recentes ao nível da diplomacia transatlântica.

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Primeiro Aniversário

Este blogue completou o primeiro aniversário no passado dia 26 de Setembro mas não está de parabéns. Longe disso!
A frequência de escrita tem sido, nos últimos meses, miserável.
Apesar do mau serviço, este não será com toda a certeza o último aniversário do "Hoje Há Tripas". Apesar da falta de tempo, permanece intacta a vontade de pertencer à globosfera, local ainda arredio dos devaneios censórios de Santana Lopes.

terça-feira, 12 de outubro de 2004

Tragicomédia

Aumentos na função pública e descida do IRS!
Confirmam-se as suspeitas antigas de que a governação demencial de PSL sairia muito cara ao país...

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

PCP

A anunciada não recandidatura de Carlos Carvalhas a secretário-geral do Partido Comunista Português poderia ser uma lufada de ar fresco, um sinal de renovação, uma frincha de aggiornamento, qualquer coisa de sinal positivo para o partido e para a sociedade portuguesa. Mas sabemos que não será nada disto e muito provavelmente será o seu contrário!
Preparemo-nos para uma demonstração inequívoca do triunfo interno da ultra-ortodoxia comunista.

terça-feira, 28 de setembro de 2004

E o Porto aqui tão perto...

A cidade vai despertando na blogosfera. Lá fora, na (outra) realidade a afirmação é mais lenta mas vai chegar.

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Professores em casa

Há um anúncio publicitário radiofónico que devia ser banido imediatamente. Uma instituição de ensino superior que lecciona cursos orientados para o ensino afirma descaradamente e várias vezes ao dia que "Portugal precisa e precisará sempre de professores... e muitos!".
Isto não é publicidade enganosa, é um acto criminoso.

domingo, 19 de setembro de 2004

Ser ou não ser?

Um blogue com sabor dinamarquês e imagens de Cuba, alojado afectivamente numa cidade de ruas largas, fervilhante de comércio e com casinhas de dois andares pintadas de todas as cores possíveis.
É pecaminoso reduzir a mítica cidadezinha de Helsingor ("Elsinore" em inglês) ao Castelo de Kronborg. Para além deste ex-libris shakespeariano, Helsingor tem um portinho de pesca absolutamente delicioso, jardins interiores de uma beleza comovente e um vento cortante que nos empurra para a policromática rua principal, densamente percorrida por hordas de suecos e onde tudo se vende e quase tudo se compra.
Ao alcance da vista temos Helsinborg, do outro lado do estreito, que apesar de estar sob bandeira sueca mais parece uma continuação da dinamarquesa Helsingor, mas com um perfil mais cosmopolita e onde pontua um bairro de casinhas de madeira do século XVI encravado entre bairros aristocráticos e delegações de empresas multinacionais.
"Ser ou não ser?"... Carla ou Ophelia?

sábado, 11 de setembro de 2004

Aniversário do terror

Hoje, há três anos atrás, assitia em directo televisivo ao embate do segundo avião contra uma das torres do WTC.
Nos minutos e horas seguintes tentei em vão contactá-la.
Do outro lado da linha, no apartamento de San Francisco, niguém atendia o telefone e o medo começava a ganhar terreno à medida que os ponteiros avançavam no relógio da sala, onde a televisão debitava notícias contraditórias e especulava sobre as imagens repetidas vezes sem conta.
O telefonema pacificador só chegou algumas horas depois do embate. Foi como se, até aí, o tempo tivesse parado e nada fizesse sentido. Nesses momentos, as vítimas do ataque terrorista resumiam-se a uma parte de mim que vivia na Costa Oeste.
Chega a ser obsceno o egoísmo humano, mas a verdade é que deste dia 11 de Setembro recordo principalmente o telefonema que me devolveu a tranquilidade roubada pelas notícias da barbárie.

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

Prova de vida

Se houvesse uma entidade que regulasse a blogosfera, a primeira atribuição devia ser a instituição da obrigatoriedade de realizar provas de vida no blog sempre que não se publicassem posts durante mais de quinze dias consecutivos.

terça-feira, 24 de agosto de 2004

Eternuridades

Absolutamente imperdível a mais recente sequência de "posts" do Luís Gouveia Monteiro sobre "amores trágicos" (a expressão é dele, para mim trata-se de um pleonasmo).

"History will be kind to me for I intend to write it" (W. Churchill)

O período estival foi fértil em derivas erráticas do nosso, também ele errático, PM. Guiado por critérios básicos de higiene mental, abstive-me de as comentar neste espaço.
Este período de repouso do Portuense, repartido de forma patriótica entre o Alto Minho e o Algarve, salpicado por incursões pelo Alentejo e pela Estremadura serviu para confirmar uma suspeita antiga. Ninguém leva PSL a sério (a começar pelo próprio PSL), o que poderá ser uma perigosa vantagem em próximos escrutínios eleitorais. De facto, com expectativas tão baixas, a simples abstinência de erros de governação grosseiros pode ser um trunfo!

terça-feira, 10 de agosto de 2004

Lisbon Revisited

(...)
Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que haveremos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
(...)

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

(Fernando Pessoa, "Lisbon Revisited", 1923)

A rivalidade entre o Porto e Lisboa (1872)

(...) existe uma incurável rivalidade moral, social, elegante, comercial, alimentícia, política, entre Lisboa e Porto. Lisboa inveja ao Porto a sua riqueza, o seu comércio, as suas belas ruas novas, o conforto das suas casas, a solidez das suas fortunas, a seriedade do seu bem-estar. O Porto inveja a Lisboa a Corte, o Rei, as Câmaras, S. Carlos e o Martinho. Detestam-se. As damas de Lisboa riem-se da pouca distinção, da pequena ciência, da falta de chique e de quê das toilettes do Porto? O Porto, rubro de ódio, cobre as suas senhoras da sumptuosidade dos estofos e das faíscas dos diamantes. (...)

O Porto tinha a Foz, a praia de banhos, rica, de um grande pitoresco de paisagem. Lisboa, rancorosa, improvisa Cascais, sítio enfezado entre pinheiros éticos e rochedos de ópera cómica.

(Eça de Queirós, "Uma Campanha Alegre")