terça-feira, 28 de outubro de 2003

Dicionário do Portuense (DdP)

Com a devida vénia ao A Natureza do Mal, também aqui se introduz a partir de agora uma rubrica cultural (DdP), numa tentativa desesperada para elevar o nível deste blogue. Sem periodicidade definida, serão escolhidas palavras - e respectivos significados - que, por um motivo ou por outro, me despertaram curiosidade. Só isto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2003

A cruz de Wojtyla

É cada vez mais penoso assistir ao calvário do sucessor de Pedro. Numa época de glorificação da juventude, da eficácia e da produtividade, somos confrontados quase diariamente com o destino de um homem - e, por essa via, com o nosso próprio destino - que escolheu carregar a sua cruz até ao final da caminhada. Este sacrifício é um testemunho de fé e de coragem mas, sobretudo, um apelo às nossas consciências. E que deverá ter uma expressão quotidiana. Não é aceitável a hierarquia de valores que a sociedade hodierna nos impõe e é essa a mensagem mais importante a extrair das violentas imagens deste homem que caminha, em público, para o final da sua vida. A sua postura frágil e curvada só se explica perante Deus. Entre os homens, Wojtyla nunca caminhou com tanta dignidade.

Já passou um ano

Um ano após a entrada no Palácio do Planalto, Lula da Silva conseguiu congregar em torno do seu projecto a maioria da população brasileira. A mobilização é notória e os índices de risco do investimento cairam para mínimos históricos, o que reflecte a confiança das instituições internacionais no executivo PT.
Apesar de o crescimento de 1% do PIB ficar aquém dos prometidos 4 a 7%, as perspectivas para o futuro próximo são positivas e essa meta parece perfeitamente alcançável já no próximo ano.
Esta lufada de esperança é importante para o Brasil, mas é também um incontestável factor de motivação para a América Latina. Encurralados entre a prepotência neocolonial dos EUA e as lideranças democraticamente deficitárias (quando não se conjugam ambos), os países da região podem aprender muito com a pedagogia do exemplo brasileiro.

sexta-feira, 24 de outubro de 2003

Chegou esta manhã

O frio veio timidamente visitar a cidade que acorda. Podes entrar, já estávamos à tua espera.

quarta-feira, 22 de outubro de 2003

Novelas

Muito por culpa própria, o PS está refém do desfecho imprevisível de uma novela judicial. Até lá, os discursos são erráticos, a postura é comprometida e a autoridade moral é frágil.
Triste destino para o maior partido da oposição. Entretanto, o Bloco de Esquerda continua a liderar a oposição parlamentar...

Alguém liga ao que ele disse?

O Presidente falou e a nação ouviu.
O seu discurso mereceu o aplauso e a concordância de todos os partidos políticos.
Ainda assim, alguém acredita que alguma coisa vá mudar (para melhor) no que diz respeito às fugas cirúrgicas de informação enquanto forma sistemática e politicamente orientada de violação do segredo de justiça?

segunda-feira, 20 de outubro de 2003

O teste do algodão

João Soares tem na reunião da Comissão Política da próxima quinta-feira a oportunidade ideal para mostrar (ou não!) o seu carácter.
Os acontecimentos da última semana fragilizaram o secretário-geral socialista e devem constituir um forte motivo para que os "submarinos" do PS (que têm andado activos como nunca) subam à superfície e apresentem alternativas.
Se assim não fizerem, o país e o partido ficam a conhecer a fraca estirpe dos candidatos que se irão perfilar à sucessão.
Nesse dia - quando o risco de perder for demasiado pequeno e quando já estiver concluído o trabalho prévio de desacreditação do líder - surgirão com estratégias brilhantes e inovadoras...

sexta-feira, 17 de outubro de 2003

Dúvida e medo

As recentes intervenções de Ana Gomes intrigam-me profundamente...
Tratar-se-á da antiga embaixadora de Portugal na Indonésia ou de alguém completamente diverso?

Lei da Oferta e da Procura - a questão brigantina

Num só pulo, Bragança deixa definitivamente o anonimato das pequenas cidades do interior português e entra pelo olhos de toda uma Europa que lê a "Time".
O mercado brigantino da prostituição tem funcionado, até aqui, de forma satisfatória, havendo um equilíbrio entre a oferta e a procura que permite uma política de preços ajustada ao poder aquisitivo dos clientes destes serviços (maioritariamente homens residentes na cidade).
Acontece, porém, que a operação de marketing lançada pela "Time" peca por excesso e apregoa uma oferta em quantidades que em nada têm paralelo com a realidade da cidade.
As hordas de turistas sexuais que irão começar a afluir a Bragança demandando os serviços que viram publicitados na revista vão desequilibrar o mercado, provocando uma inevitável subida dos preços que, em última análise, irá prejudicar os clientes nacionais com menor poder aquisitivo.
Claro que a economia da região sofrerá um impacto positivo em sectores ligados à restauração, hotelaria e transportes, mas a líbido dos homens de Bragança pagará um preço elevado por tal benefício na economia local.

Mas afinal... quem é que devia pagar por eles?

Os estudantes teimam em manifestar um profundo descontentamento por serem obrigados a contribuir financeiramente para o aumento da qualidade do seu próprio ensino. Até agora, só conseguiram criar anticorpos na restante sociedade - que também não está disposta a pagar por eles!

quarta-feira, 15 de outubro de 2003

Trilogia "Provérbios da minha infância"

A trilogia "Provérbios da minha infância" pode ser comparada diariamente com os "case studies", comentários e enquadramentos conceptuais do caso "Casa Pia".

terça-feira, 14 de outubro de 2003

A cidade adiada

Sobrevivente na cidade adiada, o Portuense passeia o seu desencanto pelas estreitas avenidas de um destino por cumprir.

quinta-feira, 9 de outubro de 2003

Estudantes na rua

A vaga de manifestações estudantis ameaça tornar-se insuportável.
A opinião pública já se foi acostumando à sazonalidade desta erupções contestatárias orquestradas pelos dirigentes associativos. Confrontados com a sua própria incapacidade em assumir o estatuto de interlocutores idóneos junto dos órgãos directivos universitários e do Ministério da tutela, remetem-se ao papel fácil - mas incoerente - da contestação gratuita a toda e qualquer medida previsivelmente impopular entre as suas hostes.
O crescente alheamento da comunidade estudantil em matérias de política, cultura e até educação (no sentido mais abrangente) em muito contribui para o actual panorama do dirigismo estudantil português.
Encurralados entre as directrizes revolucionárias (sem causa) de uma JCP e o conformismo comprometido de uma JSD, vão medrando jovens líderes que, uma vez eleitos pelos seus pares, são guiados pelo propósito único da sobrevivência no poder fátuo das estruturas estudantis.
Este marasmo de ideias e de estratégias é agitado pelas mediáticas manifestações que mais não fazem do que mostrar à sociedade uma classe universitária desorientada, com sede de protagonismo e confrontada com uma confrangedora falta de orientação estratégica.
Estas “provas de vida” das direcções associativas já há muito deixaram de ser ridículas. Continuam patéticas, mas inspiram cada vez mais o choro e menos o riso.

A moral segundo Bill Gates

A decisão de fechar as salas de “chat” de acesso livre por parte da Microsoft é, no mínimo, despropositada. O argumento de que esta facilidade seria utilizada por pedófilos que aí procederiam a actos ilícitos - nomeadamente ao aliciamento de potenciais vítimas - não resiste a qualquer análise lúcida.
Seguindo a mesma linha de raciocínio dever-se-iam suspender os instrumentos de comunicações móveis que são reconhecidamente utilizados de forma continuada por traficantes de droga, pedófilos, assaltantes e toda a espécie de malfeitores. De seguida, seriam proibidos os automóveis (não consta que os pedófilos que actuam no Parque Eduardo VII aí se desloquem a pé) e por aí fora…

sexta-feira, 3 de outubro de 2003

Revisionismo histórico

A recente inauguração do busto de Adelino Amaro da Costa no jardim do Palácio de Cristal é uma acto duplamente lamentável.
Em primeiro lugar, contraria a vontade dos cidadãos do Porto que, maioritariamente, não se revêem nesta iniciativa voluntarista e inoportuna de Rui Rio. Em segundo lugar, a homenagem está inserida numa inaceitável operação de revisionismo histórico orquestrada pelo actual líder do CDS-PP que é, a todos os níveis, ofensiva da memória e do património humano do partido a que preside.
A patética, mas nada inocente, colagem a Adelino Amaro da Costa surge na linha de outras comparações do ministro de Estado e da Defesa com personagens como Donald Rumsfeld aquando da visita deste último ao nosso país.
Paulo Portas apresenta de si próprio uma imagem perigosamente próxima do arquétipo dos seus inimigos políticos. Quem lhe adivinharia as tendências para o revisionismo histórico e para o culto da personalidade quando, nas revoltadas páginas do “Independente”, ia destilando indignação e ódio contra os pecadilhos políticos da era cavaquista? E que dizer então da coincidência destas práticas de promoção pessoal com as do regime estalinista, permanentemente zurzido pelo líder do PP, mesmo passadas décadas sobre o fim do mesmo?
Para além desta inauguração e dos discursos de circunstância, ficou clara a estratégia de Paulo Portas. Pretende manter o seu poder dentro do Governo, por força de uma coligação que lhe permite dispor de um protagonismo e influência política que não corresponde nem de perto nem de longe ao peso político do seu partido na sociedade portuguesa.
Esta situação perverte a representatividade democrática no Governo da nação e esvazia o futuro político do CDS-PP, através de uma abdicação permanente das suas bandeiras históricas em matérias como o federalismo, a regionalização, o aborto, etc.
O CDS-PP está a pagar um preço demasiadamente elevado - o seu próprio futuro enquanto partido independente - pela ambição pessoal de Paulo Portas.

Causas e Consequências

As inqualificáveis agressões a que foi submetido um deputado da República não podem ser ignoradas nas suas causas mais profundas, sob pena de, num futuro próximo, se virem a repetir.
Em Felgueiras foram expostas à evidência as graves debilidades de que ainda enferma a nossa cultura democrática.
A “sociedade da informação”, erroneamente percepcionada pela classe política como generalizada no Portugal hodierno, apresenta ainda vastas zonas de exclusão de que a enraivecida mole humana felgueirense é um exemplo. O “país a duas velocidades” é uma realidade e tentar escondê-la terá consequências ainda mais gravosas do que combatê-la.
A classe política não pode ignorar este dramático alerta para o défice cultural que ainda grassa em algumas zonas do país (e não apenas no interior!). As políticas e os instrumentos de que dispõe neste domínio (formação e informação) deverão ser monitorizados na sua eficácia e eficiência e, se necessário, reformulados sem demora.
Se a apropriação errónea de conceitos relativos aos direitos, liberdades e garantias do regime democrático é imputável a alguma iliteracia das populações, não é menos verdade que a classe política tem também responsabilidades às quais não se pode eximir e que são exclusivamente suas. A defesa reiterada de posições corporativistas - não poucas vezes ao arrepio dos padrões morais, éticos e deontológicos que deveriam pautar a sua actividade - conduziu ao progressivo descrédito da classe e constitui uma causa próxima para os selváticos ataques ao deputado Francisco Assis.
Estão também agora à vista os efeitos de certa política, eivada de demagogia, de populismo desbragado e de apelos sistemáticos aos sentimentos mais elementares das populações.
Este caldo de cultura potencia a alienação das massas e tem, por isso, consequências imprevisíveis.
O país profundo existe e, entre manifestações de indignação e discursos de boas intenções, continua a afundar-se inexoravelmente perante o atavismo geral.
O vilipêndio das instituições democráticas, já severamente fragilizadas por outros escândalos, não pode ficar impune.
O regime democrático está ameaçado e já levou as primeiras estaladas. Continuará a representar o papel do pai demissionário por muito mais tempo?

E as vítimas da "Guerra" de Joanesburgo?

Não haja equívocos, a Cimeira da Terra em Joanesburgo foi um fracasso global e provocou um número incomensuravelmente maior de vítimas do que a mais recente sequela da Guerra do Golfo. Em Joanesburgo as expectativas iniciais eram propositadamente baixíssimas, com vista à divulgação de uma imagem de sucesso relativo no final da Cimeira. A ardilosa estratégia não apagou, contudo, as sentenças de morte que ali foram passadas a 13 milhões de seres humanos do Lesotho, Malawi, Moçambique, Swazilândia, Zâmbia e Zimbabwe, que lutam diariamente contra a fome e que não puderam encontrar em Joanesburgo um aliado no seu combate pela sobrevivência. O manto da ignomínia cobriu de novo as mais altas figuras mundiais e foi dado o mote para nova investida anti-globalização. Já não há operações cosméticas que mascarem o lodaçal fétido da diplomacia internacional.
A reacção - também ela cada vez mais global - contra a globalização, não combate um conceito que poderia até ser interpretado de uma forma ambiental e socialmente equilibrada (ex.: taxa Tobin), mas antes uma bem urdida teia de interesses norte-americanos e europeus que, em prejuízo dos direitos mais elementares de uma porção significativa da população mundial, prosseguem a sua marcha triunfal sobre as economias depauperadas dos países sub-desenvolvidos e em vias de desenvolvimento.
As metas que enformaram o plano de acção desta Cimeira eram de tal forma pouco ambiciosas que os próprios agentes económicos mais perversamente implicados nesta cruzada desenfreada pelo triunfo do capital global devem estar agradavelmente surpreendidos com os resultados obtidos. O “sucesso” despudoradamente apregoado por alguns líderes mundiais só serve uma minoria depredatória, amoral e geracionalmente egoísta que compromete seriamente o futuro da humanidade, sacrificando-a no altar da globalização neoliberal.
Esta é a globalização das injustiças sociais e da exploração irracional dos recursos. Com ela se vai cavando diligentemente o fosso entre ricos e pobres, entre globalizantes e globalizados. Uma ameaça, porém, é global e terrível, afectando indistintamente uns e outros – a destruição progressiva dos ecossistemas e a veloz aproximação do ponto de ruptura a que chamamos insustentabilidade!