segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

Uma ideia de Europa

A idiossincrasia da Europa está, para Steiner, nos seus cafés. Não nos bares assépticos da América do Norte, quase sempre vazios, melancólicos e com uma irritante música de fundo, mas nos cafés de Pessoa, barulhentos, medianamente limpos e povoados por clientes habituais que constituem amostras do universo da respectiva metrópole.

Outro ponto de ancoragem da identidade europeia é a distância pedestre entre as metrópoles. A Europa pode ser percorrida a pé e até as cordilheiras se encontram salpicadas por abrigos de montanha, da mesma forma que os nossos parques urbanos estão equipados com bancos de madeira para permitirem o justo descanso dos viajantes.

Também por estes motivos se torna evidente que a afirmação europeia ante a inevitabilidade da globalização só pode ser iniciada quando for reconhecido o timbre cultural que historicamente enformou esta civilização.

A actual geração de líderes europeus tem a suprema responsabilidade de transmitir aos vindouros um legado milenar que não pode ser comprometido por critérios de oportunidade comercial ou quaisquer outros de idêntico teor. A Europa não precisa de se afirmar em antítese ao Estado Unidos, mas também não o deve fazer em colagem excessiva e acrítica.

O facto de Barroso ter chegado onde chegou diz-nos quase tudo sobre a Europa que temos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Aceita-se Procurador-Geral da República

Oferece-se: remuneração compatível.
Exige-se: escolaridade obrigatória, nacionalidade portuguesa, boletim de vacinas em dia, domínio básico de MsExcel na óptica do utilizador.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Crucifixos

Assiste-se hoje um pouco por todo o mundo ocidental ao progresso da investida laicista dos governos, com o intuito de satisfazer as aspirações - mais ou menos confessáveis - de alguns sectores da sociedade que, travestidos de republicanos e laicos, pretendem em boa verdade a instituição de estados anti-religiosos e não apenas laicos, como nos pretendem fazer crer.
A proibição dos crucifixos nas escolas é uma medida que, enquanto católico, não me choca. Tenho no entanto sérias dificuldades em perceber que haja portugueses que se sintam chocados com a representação de um “homem pregado numa cruz”.
É uma imagem “violenta” para as crianças, advogam os ditos laicos. Convém todavia relembrar a essa legião crescente de palerminhas acobertados por obscuras teses da pedopsiquiatria, que a “violência” de alguém que, há dois mil anos, terá morrido na cruz para salvar todos os homens não é de forma alguma comparável às decapitações, atropelamentos, bombardeamentos e outras idiotices de igual quilate que as inocentes criancinhas sorvem avidamente através dos videojogos, da TV e da Internet.
O ridículo atingiu-se já no Estados Unidos, com a proibição de referências oficiais ao Natal. As instituições devem apenas referir termos inócuos e consensuais com os “feriados”, as “festas” ou as “férias” do final do ano.
O preço a pagar por esta investida anti-religiosa será altíssimo. Aliás, a recente polémica em torno da referência à matriz cristã na futura Constituição Europeia foi já um claro alerta da debilidade cultural dos líderes europeus, que teimam em não querer perceber que a afirmação dos valores cristãos – inequivocamente fundadores da Europa tal como a conhecemos hoje – é a mais eficaz e duradoura política antiterrorista de que podem dispor.

segunda-feira, 28 de novembro de 2005

Rigor, seriedade, competência e... muito voluntarismo






Podia ser um "slogan" estafado de mais um candidato presidencial... mas é o lema não oficial do Banco Alimentar.

Esta organização é, sem sombra de dúvida, um exemplo de cidadania participativa. Mais do que um projecto de caridade "salazarenta", trata-se de um conceito-acção de verdadeira solidariedade social, que se conseguiu afirmar ante a indiferença e a desconfiança generalizada dos portugueses.

O sucesso estrondoso da campanha deste fim-de-semana justificou a máxima: "não é importante que haja poucos a dar muito, mas sim que haja muitos a dar pouco". Assim foi.

Quem, como eu, esteve no armazém do Banco a receber os produtos - que chegavam em torrente - não podia deixar de sentir um genuíno orgulho em ser português, em verificar que a máquina consumista e individualista em que nos tornámos ainda tem alguns "bugs" de solidariedade a lembrar-nos que, antes de sermos "isto", éramos homens.

Com notícias assim, apetece pôr a bandeira de Portugal à janela!

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Cavaco na TVI

A entrevista concedida, com notório enfado, por Cavaco Silva à TVI foi ela própria enfadonha.
Nem a arrogância gratuita de Constança Cunha e Sá afastou o "Professor" do discurso que tinha delineado para aquela entrevista e que, sublinhe-se, não podia ser mais previsível.
Numa frase, Cavaco tem isto para dizer aos portugueses: "Um tecnocrata na Presidência aumenta a confiança dos investidores e, por essa via, contribui para a retoma económica".
Como diria Soares, "é curto" para um Presidente da República.

De afronta em afronta

A verdadeira questão de fundo relativamente ao despacho do ministro Mário Lino não é a tese, rebuscada, de se estar a desautorizar o primeiro-ministro no que respeita aos compromissos assumidos sobre o metro do Porto. É, à semelhança do que aconteceu recentemente com a eliminação da linha do TGV entre Porto e Vigo, uma afronta gravíssima a toda a Área Metropolitana do Porto (cuja Junta, note-se, é uma não-entidade).

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

Anúncio de Jornal

Bom negócio.
Troco tabuleiro de xadrez, em bom estado, por fotografias antigas tiradas em residência na zona de Elvas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Aí está...

... o resultado de termos um Presidente da Câmara que não se considera representante de uma região.
Segundo notícias recentes será intenção do Governo que o TGV venha a ligar o Porto a Lisboa (com paragem em Leiria?!) e Lisboa a Madrid. A ligação entre o Porto e Vigo é afastada dos planos da Administração Central.
O que dirá ou fará Rui Rio relativamente a esta afronta? Muito pouco ou nada, atendendo à percepção que tem dos poderes que lhe foram atribuídos a 9 de Outubro...

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Tanto haveria a dizer...

... sobre os resultados das eleições autárquicas, sobre o Orçamento de Estado, sobre a candidatura de Cavaco Silva... mas infelizmente (ou felizmente!), não temos tempo!

Talvez esta limitação se revele positiva a médio prazo. O que aqui se escrever sobre estes temas resultará de uma digestão mais demorada e não estará tão condicionado por estados de alma momentâneos.

Este blogue atravessa uma fase em que todos os copos se encontram "meio cheios" e não "meio vazios", daí o "wishful thinking" do parágrafo anterior.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

Debate autárquico sobre o Porto (RTP 1)

Para começar, uma constatação óbvia: o vencedor (mais do que surpreendente) foi Rui Sá.
Dito isto, poder-se-á acrescentar que Assis desperdiçou uma excelente oportunidade para demonstrar a sua superior preparação para ocupar a presidência da autarquia portuense. Quem apenas o ficou a conhecer por via deste debate não terá ficado com a melhor impressão.
Claro que Rio continuou no seu estilo crispado e irritadiço, mas esperava-se melhor réplica por parte do candidato socialista. Principalmente depois de este último ter lamentado durante toda a campanha a pouca disponibilidade de Rio para debates.
O "coelho" que Rio tirou da cartola foi de mau gosto e, dizem-no fontes seguras, nem sequer corresponde inteiramente à verdade. Assis reagiu à provocação de forma correcta e em tempo útil.
Teixeira Lopes foi um não participante no debate. Apenas se dava pela sua presença quando um dos jornalistas, perante a apatia continuada do bloquista, o interpelava sobre algum assunto.

Rui Sá, apesar de se encontrar na posição incómoda de crítica a um executivo do qual fez parte, soube ocupar de forma exemplar um espaço significativo do debate e atingiu plenamente os seus dois objectivos principais: anular Teixeira Lopes e evitar a bipolarização Rio-Assis do debate.

Ainda o debate autárquico

É exasperante continuar a ouvir Rio dizer que o presidente da CMP é apenas o líder da autarquia portuense!
Esta visão paroquial do poder que lhe caiu nas mãos há quatro anos é hoje inexplicável. Enquanto não se avançar para a imprescindível e cada vez mais necessária regionalização, a verdade é que se não for o presidente da CMP a funcionar como factor de pressão regional junto da Administração Central, não será seguramente o líder da Junta Metropolitana a fazê-lo! E é esta componente simbólica do poder confiado aos presidentes da CMP que Rio se recusa, teimosamente, a exercer.

A blogar desde Setembro de 2003

Já soprámos mais uma velinha. O bolo é ainda mais pequeno do que em anos anteriores e o "champanhe" desta vez é vinho espumante nacional. O céu continua negro, tal como há dois anos atrás.
Começo a ficar farto de escrever sobre um país em crise.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Na esplanada...

- Queria uma garrafa de água, por favor.
- Com gás ou sem gás?
- Pode ser com gás.
- Fresca ou natural?
- Fresquinha.
- Com radiações "alfa" ou "beta"?
- ?!

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Valentins há muitos!

"Uma Campanha Alegre"

Sem partido, sem figuras públicas, sem fazedores de opinião, sem consensos, sem sondagens, sem tecnocratas.
É difícil resistir ao charme do último candidato romântico.

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Preocupação

No próximo dia 9 de Outubro apenas 4 resultados eleitorais são, para mim, verdadeiro motivo de preocupação: Oeiras, Amarante, Felgueiras e Gondomar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

O vómito

O circo montado à volta do regresso de Fátima a Felgueiras induz o vómito de qualquer democrata. Convém não esquecer o que aconteceu em Felgueiras em 2003 e, já agora, revisitar o post de 3.10.2003, aqui no HHT ("Causas e Consequências").

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

Portocentrismo

Ontem à noite valeu a pena ir ao Majestic. E não só para matar saudades do espaço. A tertúlia organizada pelo Sport Club do Porto teve como moderador Carlos Magno e como convidado Francisco Assis.
Pelas outras mesas encontravam-se alguns cidadãos menos anónimos como Pedro Bacelar de Vasconcelos, Correia Fernandes e Braga da Cruz.
Assis demonstrou o que já se suspeitava. É infinitamente melhor do que aquilo que a sua imagem deixa transparecer. Há claramente responsabilidades a imputar aos seus responsáveis de campanha por não conseguirem tornar evidentes à opinião pública as inegáveis qualidades políticas do candidato.
A tertúlia animou quando Carlos Magno interrompe abruptamente Assis e pergunta "Afinal qual é o problema do Portocentrismo?". Há tabus que a cidade precisa de ultrapassar! O receio de ser "parolo" é uma forma de "parolismo", quanto a isso não haverá grandes dúvidas.
Assis afirmou a sua disponibilidade para afrontar a Administração Central e ressalvou, de forma prudente, que não estará nunca em causa a relação privilegiada com Lisboa, enquanto cidade com a qual o Porto partilha desafios comuns.
Falou-se ainda de arquitectura portuense, Kant e o positivismo, estacionamentos na baixa, "media park", Futebol Clube do Porto, parques tecnológicos, transportes públicos, sociedade de reabilitação urbana, institutos de investigação, captação de investimento estrangeiro, envelhecimento, fuga de competências, parques verdes, regionalização…
As farpas de Assis ao candidato Rui Rio podem ser resumidas da seguinte forma: "Não é aceitável que um político esteja sempre a vangloriar-se da sua honestidade, pelo simples facto de esta ser um requisito inerente à condição de qualquer político e não um qualquer suplemento extraordinário apenas possuído por alguns escolhidos."
Em suma, foi um exercício de cidadania e participação democrática interessantíssimo, mas que lamentamos ocorrer apenas em época eleitoral, apesar das promessas ontem formuladas em sentido contrário.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

A jóia da república

O Homem-a-Dias diz acertadamente que "Nem francesas, nem italianas, nem brasileiras, nem americanas: o verdadeiro artigo mora na Hungria"! Há poucas semanas fui guiado no edifício do Parlamento Húngaro por uma nativa cuja beleza me fez esquecer por momentos o verdadeiro motivo da visita. As jóias da coroa não eram com toda a certeza uma coroa amarfanhada e um ceptro manhoso, atirados para cima de uma almofada de veludo e fechados naquela caixa envidraçada à minha frente. A guia, cujo nome não cheguei a perceber, era a verdadeira jóia; não da coroa (que os ares agora são outros) mas da república.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Intermodalidade


Apesar de ter estado para lá da cortina de ferro durante cinco décadas, Budapeste tem hoje uma das mais eficientes rede de transportes urbanos da Europa, servindo uma população de 2 milhões de habitantes. A articulação entre autocarros, metropolitano e "trams" é quase perfeita e permite índices de mobilidade invejáveis para qualquer metrópole da idêntica dimensão.
Acresce o facto de existir metropolitano em ambas as margens do Danúbio, ligadas por um túnel que une Buda e Peste por baixo do rio.