quarta-feira, 16 de março de 2005

Deslumbramentos

Milady, é perigoso contemplá-la
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhes as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!

Cesário Verde

E agora?

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

Outdoor

Ia escrever sobre a recusa de Cavaco em aparecer ao lado de Santana nos outdoors de campanha, mas percebi imediatamente que o facto político verdadeiramente relevante (e esse sim, intrigante!) foi o facto de Barroso e Balsemão não terem idêntica atitude. Sobre uma eventual recusa de Sá-Carneiro, tenho a minha teoria que me abstenho de publicar, concordando com Pacheco Pereira: já que Santana não respeita os mortos, pelo menos façamo-lo nós.

Um país ex-bipolar

A previsível continuação da não-retoma económica poderá ser a terapia que faltava para combater a doença bipolar de que padecia uma quantidade muito significativa de portugueses. De facto, se até aqui praticavam a transumância da depressão profunda para a euforia inabalável ao ritmo de uma exposição universal ou de um campeonato europeu de futebol, o prolongamento da "crise" provocou a ancoragem emocional no pólo depressivo e dificilmente se vislumbram novas alterações no quadro clínico.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

O meu desejo para 2005

Que este 2004 pré-socrático represente o nível zero da política portuguesa.
Que em 20 de Fevereiro de 2005 nos recordemos da eterna limpidez de Sophia e possamos dizer que entramos finalmente no ano que esperávamos, no mês inicial inteiro e limpo onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância da democracia.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

A inércia

Da recente entrevista de Eduardo Lourenço ao jornal "O Diabo" retive uma ideia-chave para a interpretação da infindável novela da adesão turca: "a construção da União Europeia está a fazer-se por inércia".
É notório que o alargamento ocorre sem qualquer sustentação numa matriz idiossincrática comum (e agradeço encarecidamente que não me venham aborrecer com a Constituição Europeia).
Alargamo-nos até onde nos permitem os mares e a Rússia. Não haja ilusões, o chamado "projecto europeu", actualmente, resume-se a isto!

terça-feira, 30 de novembro de 2004

Os Diários de Che Guevara

Este filme, apesar de assentar numa narrativa sofrível, constitui um "quase-documentário" sobre a América Latina actual. A fotografia, notável, procura retratar gentes e lugares que, nos anos 50, procuravam uma identidade perdida algures entre a tradição indígena e a cultura colonial.
Estes "diários de motocicleta" (no título original) são o relato de uma viagem interior pela coordenadas de uma utopia em gestação. Aqui se traça o retrato de um sub-continente que ainda hoje permanece unido por sonhos e por misérias comuns.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

O mundo a seus pés

O cenário do Congresso de Barcelos era assumidamente inspirado em Orson Welles. Quem não imaginava Kane ao ver Santana a discursar no palanque?
O globo envolvido pela seta laranja também "dava uns ares" do logotipo da agência espacial norte-americana, mas essa associação já não era tão imediata.
Ideias e projectos para o país é que não se vislumbraram, mas isso também ninguém esperava.

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

Congratulations Mr. Bush!


Texas rules!

A vitória de Bush é quase inexplicável aos olhos da "Velha Europa". Mas deve ser lida antes de mais como um sinal claro de alerta. Não conhecemos verdadeiramente os Estados Unidos. Esta falta de conhecimento pode explicar muitos dos equívocos recentes ao nível da diplomacia transatlântica.

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Primeiro Aniversário

Este blogue completou o primeiro aniversário no passado dia 26 de Setembro mas não está de parabéns. Longe disso!
A frequência de escrita tem sido, nos últimos meses, miserável.
Apesar do mau serviço, este não será com toda a certeza o último aniversário do "Hoje Há Tripas". Apesar da falta de tempo, permanece intacta a vontade de pertencer à globosfera, local ainda arredio dos devaneios censórios de Santana Lopes.

terça-feira, 12 de outubro de 2004

Tragicomédia

Aumentos na função pública e descida do IRS!
Confirmam-se as suspeitas antigas de que a governação demencial de PSL sairia muito cara ao país...

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

PCP

A anunciada não recandidatura de Carlos Carvalhas a secretário-geral do Partido Comunista Português poderia ser uma lufada de ar fresco, um sinal de renovação, uma frincha de aggiornamento, qualquer coisa de sinal positivo para o partido e para a sociedade portuguesa. Mas sabemos que não será nada disto e muito provavelmente será o seu contrário!
Preparemo-nos para uma demonstração inequívoca do triunfo interno da ultra-ortodoxia comunista.

terça-feira, 28 de setembro de 2004

E o Porto aqui tão perto...

A cidade vai despertando na blogosfera. Lá fora, na (outra) realidade a afirmação é mais lenta mas vai chegar.

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Professores em casa

Há um anúncio publicitário radiofónico que devia ser banido imediatamente. Uma instituição de ensino superior que lecciona cursos orientados para o ensino afirma descaradamente e várias vezes ao dia que "Portugal precisa e precisará sempre de professores... e muitos!".
Isto não é publicidade enganosa, é um acto criminoso.

domingo, 19 de setembro de 2004

Ser ou não ser?

Um blogue com sabor dinamarquês e imagens de Cuba, alojado afectivamente numa cidade de ruas largas, fervilhante de comércio e com casinhas de dois andares pintadas de todas as cores possíveis.
É pecaminoso reduzir a mítica cidadezinha de Helsingor ("Elsinore" em inglês) ao Castelo de Kronborg. Para além deste ex-libris shakespeariano, Helsingor tem um portinho de pesca absolutamente delicioso, jardins interiores de uma beleza comovente e um vento cortante que nos empurra para a policromática rua principal, densamente percorrida por hordas de suecos e onde tudo se vende e quase tudo se compra.
Ao alcance da vista temos Helsinborg, do outro lado do estreito, que apesar de estar sob bandeira sueca mais parece uma continuação da dinamarquesa Helsingor, mas com um perfil mais cosmopolita e onde pontua um bairro de casinhas de madeira do século XVI encravado entre bairros aristocráticos e delegações de empresas multinacionais.
"Ser ou não ser?"... Carla ou Ophelia?

sábado, 11 de setembro de 2004

Aniversário do terror

Hoje, há três anos atrás, assitia em directo televisivo ao embate do segundo avião contra uma das torres do WTC.
Nos minutos e horas seguintes tentei em vão contactá-la.
Do outro lado da linha, no apartamento de San Francisco, niguém atendia o telefone e o medo começava a ganhar terreno à medida que os ponteiros avançavam no relógio da sala, onde a televisão debitava notícias contraditórias e especulava sobre as imagens repetidas vezes sem conta.
O telefonema pacificador só chegou algumas horas depois do embate. Foi como se, até aí, o tempo tivesse parado e nada fizesse sentido. Nesses momentos, as vítimas do ataque terrorista resumiam-se a uma parte de mim que vivia na Costa Oeste.
Chega a ser obsceno o egoísmo humano, mas a verdade é que deste dia 11 de Setembro recordo principalmente o telefonema que me devolveu a tranquilidade roubada pelas notícias da barbárie.

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

Prova de vida

Se houvesse uma entidade que regulasse a blogosfera, a primeira atribuição devia ser a instituição da obrigatoriedade de realizar provas de vida no blog sempre que não se publicassem posts durante mais de quinze dias consecutivos.